Buenos Aires pelos passos de Borges

•Março 20, 2009 • Deixe um Comentário

 

coppola

Lembro-me de numa manhã de Verão declinante, sob um sol de areia, ter apanhado um taxi à porta do número 1660 da rua Anchorena que acabara de visitar, no bairro de Palermo Viejo, Buenos Aires, onde Jorge Luís Borges viveu entre 1938 e 1946, e que aquela manhã foi, também para mim, uma espécie de casa de Asterión, como a do conto homónimo, onde «todas as partes […] existem muitas vezes [e] qualquer lugar é outro lugar. A casa é do tamanho do mundo; ou melhor é do mundo».

Dali, da casa de Asterión, que me fora revelada na sua perfeita ubiquidade, fui, ainda, no rastro de Borges até ao outro lado da cidade, ao café Tortoni, na avenida de Mayo, que o escritor frequentava a caminho da Biblioteca Nacional. Num dos espelhos que ali se encontram para multiplicar o número daqueles que ali vão nos passos de Borges, pareceu-me vê-lo passar com O livro de areia debaixo do braço. E de me ter perguntado se aquele homem cuja imagem fantasmal via reflectida no espelho fosse realmente Borges, para onde iria ele naquela manhã de verão declinante? A resposta encontrei-a, depois, inscrita no livro: «Declinava o verão, e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me serviu considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade. Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse com fumaça o planeta. Lembrei haver lido que o melhor lugar para ocultar uma folha é um bosque. Antes de me aposentar, trabalhava na Biblioteca Nacional, que guarda novecentos mil livros; sei que à direita do vestíbulo uma escada curva se afunda no porão, onde estão os periódicos e os mapas. Aproveitei um descuido dos funcionários para perder o Livro de Areia  numa das húmidas prateleiras».

Lembro-me de, depois, ter saído do Tortoni, pensando que Buenos Aires era um jardim de caminhos que se bifurcam, como confirmaria, na mesma manhã, também ela já declinante, na confeitaria London City, na esquina com a rua Peru, para onde me conduziu o acaso. É que, sem que o soubesse, sentara-me mesmo ao lado da mesa onde Julio Cortazar escreveu, em 1960, o seu primeiro romance, Los premios. Um empregado fardado a rigor contou-me que fora ali, naquela mesa protegida por uma corda de veludo, que se dera início à concentração dos premiados; uma placa de metal, um caderno e uma caneta completavam a mais do que despojada instalação cortazariana. Um pequeno painel reproduzia algumas passagens do romance que tem como cenário o café onde me imagininei conversando com o cronópio.

Naquele momento não sabia ainda que, nessa mesma tarde, ao deambular pela cidade dos livros, uma outra bifurcação, no número 429 da rua Rodrigues Peña, me faria entrar num alfarrabista com o apropriado nome de Brujas para comprar a primeira edição de Rayuela, da Editorial Sudamerica cuja cartografia labiríntica vou por estes dias explorando através de bifurcações narrativas que me conduzem de Portimão a Buenos Aires e vice-versa.

 

[transcrito de O que cai dos dias, de João Ventura]

 

 [Outras bifurcações, no Festival Fervor de Buenos Aires, no TEMPO, até ao final de Março]

Anúncios

A mão direita de Mylia

•Fevereiro 21, 2009 • Deixe um Comentário

A igreja está fechada. Todas as portas e janelas das casas por onde vagueiam as personagens estão abertas. O hospício Rosenberg está aberto. A noite adensa-se em todas as ruas. Apenas umas árvores, as dos namorados, dão um encanto romântico, contudo, longínquo, nostálgico, já perdido num passado irrecuperável.

As personagens circulam pelas ruas e casas à procura do que está encerrado na sua mente. Procuram o sentido. Procuram o sentido na penumbra da noite.

Apenas Theodor Busbeck sabe o que procura: o ritmo do aparecimento do horror na história da humanidade. O horror é a doença latente da humanidade. Ora aparece, ora recolhe como um frúnculo podre, que fica escondido até à próxima. Há na humanidade, na cabeça da humanidade, o sentido que comanda este ritmo. E a tragédia agudiza-se quando uns se tornam em carrascos e outros em sofridas vítimas. Será a ousadia de Busbeck em querer dizer este sentido, a sua maior loucura?

Hinnerk Obst transporta bem no meio do seu espírito o frúnculo que o corrói: o medo. A arma que traz sempre à cintura dá-lhe a falsa impressão de herói. De dia faz pontaria às crianças do jardim como quem brinca ao todo poderoso. De noite o medo enche-lhe o peito, as artérias, todo o cérebro é inundado por aquela força carniceira e  atinge o auge ao aniquilar o primeiro vestígio de fragilidade que encontra na rua. O medo que se transforma numa força cega, será  essa a sua maior loucura?

Mylia conta em tom de evidência que é esquizofrénica. Como se a sua doença fosse o seu nome. O seu apelido, aquele que se escreve depois do nome próprio, e que nos prende à família. Vai viver, então, para a casa de família, o hospício Rosenberg. Sofre de uma dor no centro do corpo, de uma dor infernal que a torna não funcional no mundo normal. Diz ver a alma e isso é a sua maior anormalidade.

Ernest Spengler tenta desistir da vida, por falta de sentido. Saído do hospício, perde a ligação a Mylia e nunca viu o seu filho Kaas crescer. Ernest não tem sentido. Apenas o vazio no centro da sua vida. O telefonema de Mylia prende-o de volta à vida, a voz aflita da sua amada ao fundo da linha devolve-lhe um sentido, uma esperança, para a qual corre até  a encontrar desmaiada na cabine telefónica. Será o vazio de Ernest a sua maior loucura?

O encontro acontece como uma teia. A tragédia de cada um condu-los a uma emboscada, como se houvesse naquela proximidade entre as personagens uma estranha força de atracção, uma química inevitável, onde o destino só poderia ser aquele. Necessariamente aquele. Hinnerk destrói o único sentido possível entre Mylia e Ernest: Kaas, o fio frágil e desprotegido que fora gerado no único mundo possível, o hospício.

Ernest desaparece arrastado pelo medo, matara sem saber o assassínio do seu filho Kaas. A emboscada engole o herói: Hinnerk.

Mylia permanece no centro de encruzilhada. Assume, sem saber, a morte daquele que matou o próprio filho. De arma na mão procura de novo a igreja. Aquela que horas antes encontrara fachada. De arma na mão procura entrar na igreja – representação da encruzilhada humana? Entre o bem e o mal.

Busbeck dissera uma vez que um homem que não procura Deus é louco. Apenas Mylia O procura. A esquizofrénica procura Deus… O que fora roubado à normalidade espiritual na restante humanidade, questiona Theodor Busbeck. Encontrar o ladrão, curaria a humanidade.

Mylia recorda uma frase e di-la como se fosse a legenda de um segredo: Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita.  A mão direita. A mão que faz. A mão que avança o pensamento para a acção A mão que transforma. A mão que decide. A mão que pousa na consciência e que nela sente o medo original da humanidade, como uma respiração regular.

A mão direita de Mylia não está seca. Mylia talvez não o saiba, a sua doença troca-lhe a clareza das ideias, mas a sua consciência preserva a normalidade espiritual. Matei um homem – diz Mylia – Deixam-me entrar?

Mylia opõe-se ao holocausto, na aparente fragilidade da sua esquizofrenia.

Maria do Rosário Cristóvão

Desenho de Afonso Cristóvão Guerra

Jerusalém

•Janeiro 28, 2009 • Deixe um Comentário

O mal, o poder, a técnica, o corpo, a loucura, o absurdo e os limites da racionalidade são os temas que atravessam os «livros negros» de Gonçalo M. Tavares, instituindo um espaço ficcional com um ambiente negro, onde a violência – física ou da palavra – está iminente, onde as personagens tecem um mapa que, embora não identificável geograficamente, parece estar muito perto de nós, de um certo extremo (ou núcleo de forças) que nos constitui enquanto seres humanos. Tudo isto, aliado a uma escrita incisiva e depurada, faz da tetratologia «O Reino» uma das mais originais criações da literatura portuguesa dos últimos anos. Jerusalém que alia a sombra de Kafka à mestria de Gombrowicz constitui o pretexto para uma aproximação àquele que é, talvez, o mais perturbador dos autores portugueses contemporâneos.

 

 

 

 

Comunidade de Leitores A Companhia dos Livros

•Janeiro 28, 2009 • Deixe um Comentário

Comunidade de Leitores

A Companhia dos Livros

O livro é essa viagem – muitas vezes solitária e outras vezes empreendida na companhia de outros leitores – que se faz caminhando por um caminho escrito pelo autor e que na imaginação de cada leitor se instaura como uma experiência inaudita, íntima e livre, tecida de palavras que, como flechas luminosas, transportam ideias, tecem enredos, contam vidas, sonhos. Viagem generosa e redentora, portanto, capaz de fazer florescer em nós, leitores, novos pontos de luz que umas vezes nos consolam outras vezes nos perturbam. N´ A Companhia dos Livros a imaginação pode tomar forma, transformar-se numa narrativa construída a várias vozes, onde cada voz acrescenta uma interpretação, um ponto de vista, uma cintilação partilhada.

Uma iniciativa do

Instituto de Cultura Ibero-Atlântica

para o projecto

A Biblioteca Inconstante do

TEMPO – Teatro Municipal de Portimão